O doutor Éverton da Costa Sagiorato observa que a cena se repete em quase toda casa. Diante de uma dor de cabeça persistente, de uma azia frequente ou de uma tosse que não passa, muita gente recorre à caixa de remédios antes de cogitar um consultório. A automedicação promete alívio imediato e sem burocracia, e é exatamente essa conveniência que a torna arriscada.
Tratar o sintoma por conta própria não é, em si, o erro central. O erro está em confundir o desaparecimento do incômodo com a solução daquilo que o provocou. Um sinal silenciado não é um sinal resolvido, e o corpo, quando insiste em avisar, costuma ter um bom motivo para isso.
O que realmente acontece quando se ataca só o sintoma?
Sintomas são a linguagem que o organismo usa para apontar um desequilíbrio. A dor, a febre e o cansaço não são a doença, são o alarme dela. Ao tomar um analgésico potente sem saber a origem da dor, a pessoa desliga o alarme sem apagar o incêndio e passa a conviver com um problema que segue avançando em silêncio, agora sem aviso sonoro para denunciá-lo.
O risco fica evidente nos quadros que evoluem devagar. Uma dor abdominal recorrente tratada apenas com antiácidos pode mascarar uma gastrite avançada ou algo mais grave; uma tosse persistente abafada por xaropes pode adiar o diagnóstico de uma condição pulmonar. Éverton da Costa Sagiorato comenta que, quando o sintoma finalmente vence a medicação e reaparece, o quadro por trás dele já teve tempo de piorar.
Por que o medicamento certo na mão errada faz mal?
Nenhum remédio age de forma isolada no corpo. Ele interage com outros medicamentos, com condições de saúde já existentes e com a resposta específica de cada organismo. O que é seguro para uma pessoa pode ser perigoso para outra, e essa avaliação depende de informações que só uma consulta reúne por inteiro.
Remédio vendido sem receita é sempre seguro para tomar por conta própria?
Não. A dispensa de receita significa apenas menor risco no uso pontual, não ausência de risco. Dose errada, uso prolongado ou combinação com outros remédios podem causar dano até em produtos de venda livre.

Essa falsa sensação de segurança dos itens de balcão é um dos grandes motores da automedicação. Analgésicos comuns, em uso prolongado, sobrecarregam fígado e rins; anti-inflamatórios agridem o estômago; e a mistura de substâncias que atuam sobre o mesmo órgão multiplica o efeito sem que o usuário perceba. Sagiorato descreve esse acúmulo como um dano que se constrói aos poucos, longe da percepção de quem só queria um alívio rápido.
O caso dos antibióticos e a conta que fica para todos
Fundado nesses conceitos, o doutor Éverton da Costa Sagiorato avalia que há um erro cujo custo ultrapassa o indivíduo. Usar antibiótico por conta própria, interromper o tratamento na primeira melhora ou repetir uma receita antiga alimenta a resistência bacteriana, o fenômeno em que os micro-organismos deixam de responder aos medicamentos. O resultado atinge a coletividade: infecções antes simples de tratar tornam-se mais difíceis e caras de resolver.
Nesse ponto, a automedicação sai da esfera do risco pessoal e vira uma questão de saúde pública. Cada uso indevido treina as bactérias a sobreviver, e o arsenal disponível para combatê-las encolhe aos poucos. É um exemplo nítido de como uma decisão individual, repetida por milhões de pessoas, produz um efeito que ninguém escolheu de propósito.
Como quebrar o hábito sem abrir mão do alívio?
Nada disso significa suportar dor calado até conseguir uma consulta. Significa tratar o sintoma como pista, e não como inimigo a ser eliminado a qualquer custo. Anotar quando o incômodo aparece, o que o piora e há quanto tempo persiste transforma uma queixa vaga em informação valiosa para quem vai avaliar o quadro. Éverton da Costa Sagiorato nota que o paciente que chega com esse registro encurta bastante o caminho até o diagnóstico correto.
A diferença é de postura, não de coragem para aguentar dor. Quem trata o sintoma como informação age mais cedo e com menos remédio. Quem o encara como inimigo tende a medicar cada vez mais e a entender cada vez menos o próprio corpo.
O que o alívio rápido não consegue comprar
A automedicação seduz porque entrega o que todo mundo quer: o fim do desconforto, agora. O que ela não entrega é a certeza de que o problema foi de fato resolvido, e é justamente essa certeza que separa cuidar da saúde de apenas empurrá-la para frente.
Ao fim, o doutor Éverton da Costa Sagiorato pontua que a pergunta certa diante de qualquer sintoma não é o que fazer para parar de senti-lo, e sim por que ele apareceu, porque só a segunda leva a uma resposta que dura, em vez de um alívio que precisa ser recomprado dose após dose, sem nunca chegar ao fim de nada.
